domingo, 17 de maio de 2015

HISTÓRIA DE UM CÃO ( VELUDO ) - LUIZ GUIMARÃES

Voz de Rômulo Rostand 


Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo;
Para dizer numa palavra tudo,
Foi o mais feio cão que houve no mundo.

Recebi-o das mãos dum camarada,
Na hora da partida. O cão gemendo
Não me queria acompanhar por nada:
Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.

O meu amigo, cabisbaixo, mudo
Olhava-o...o sol nas ondas se abismava...
"Adeus!" - me disse, - e ao afagar Veludo,
Nos olhos seus o pranto borbulhava


"Trata-o bem. Verás como o rafeiro
Te indicará os mais sutis perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos"

Veludo a custo habituo-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.

Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso,trêmulo, agitando
A sua cauda - caminhava, errante,
A luz da lua - tristemente. uivando

Toussenel, Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores,
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.

Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! era um artigo.

Contendo a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes:

Gabava o steamer que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais - todas francesas.


Assombrava-me muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso de uma passageira...
Mil coisas mais de que me não recordo.


Finalmente, por baixo disso tudo,
Em nota bene do melhor cursivo,
Recomendava o pobre Veludo,
Pedindo as Deus que o conservasse vivo.
 

Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento,
Me contemplava, e - creia que é verdade,
VI, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.


Depois lambeu-me as mãos humildemente,
Estendeu-se aos meus pés silencioso,
Movendo a cauda, - e adormeceu contente,
Farto dum puro e e satisfeito gozo.

Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre daquele companheiro;
Para nada o Veludo me servia,
Dei-o à mulher dum velho carvoeiroE respirei:

"Graças a Deus já posso"
Dizia eu "viver neste bom mundo,
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo"

Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora,
Um alazão inglês , de sela ou tiro,
Ou uma gata branca cismadora.

Mal respirei, porém! Quando dormia,
E a negra noite amortalhava tudo,
Senti que a minha porta alguém batia:
Fui ver quem era. Abri. Era Veludo.

Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito;
E - de cansado - foi rolar dormindo
Como uma pedra, junto do meu leito.

Praguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno,
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.

E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo:
Para livrar-me desse cão leproso,
Havia um meio só: era matá-lo.

Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo,
Arrebentava em uivos e lamentos...
De instante a instante ia o tufão crescendo,

Chamei Veludo: ele seguiu-me. Entretanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.

Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogámos;
Dava-me força o torvo pensamento
Peguei num remo - e com furor remámos.

Veludo à proa olhava-me choroso,
Como o cordeiro no final momento,
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.

No largo mar ergui-o em meus braços,
E arremessei-o às ondas de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte! Era pungente!

Voltei à terra - entrei em casa.
O vento Zunia na amplidão profunda
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas, moribundo.

Mas ao despir dos ombros meus o manto,
Notei - oh grande dor! - haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido

Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato,
Pois minha mãe me dera essa corrente, 
E, suspenso à corrente, o seu retrato.


De certo caíra além no mar profundo,
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah! se Veludo

Duas vidas tivera, - duas vidas
Eu arrancara àquela besta morta,
E aquelas vis entranhas corrompidas!
Nisto senti uivar a minha porta.

Corri, abri...Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se aos meus pés - e docemente
Deixou cair da boca, que espumava,
A medalha suspensa da corrente.

Fora crível, oh meu Deus? - Ajoelhado
Junto ao cão - estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo; estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto



* Texto reproduzido do site: http://nanderio.blogspot.com.br/2010/04/historia-de-um-cao.html


** Esta poesia encontrasse no livro "Crestomatia - excertos escolhidos em prosa e verso dos melhores escritores portugueses e brasileiros". Autoria de Radagásio Tabosa. O livro foi largamente adotado entre os anos 30 e 50 nas escolas. Minha tia lembra essa poesia de cor. Também alguns pais de amigos a têm de memória. É possível encontrar exemplares originais ou cópias em alguns Sebos.

GLOSSÁRIO:

Lasso..............:  Fatigado, cansado. / Dissoluto, enervado, gasto. / Bambo, relaxado, frouxo. - Fonte: Dicionário Michaelis

Nota bene......:  É uma locução latina que significa "note bem", no sentido de "preste atenção". Atualmente é comum encontrá-la quando o escritor ou tradutor deseja chamar atenção do leitor sobre algum ponto ou detalhe. Normalmente aparece abreviada como N.B.
Gramaticalmente, é formada com o imperativo do verbo notāre (notar) e o advérbio bene (bem). - Fonte: Wikipedia

Rafeiro...........:  Diz-se de uma casta de cães próprios para a guarda de gado /  Diz-se do que sempre acompanha outro, como o cão segue o dono. - Fonte: Dicionário online

Steamer..........:  Antigo navio movido a vapor / Antiga embarcação movida a vapor.



Nenhum comentário:

Postar um comentário